Caminhada dos duros - Na serra da Lousã

Organização:  Obeta - Orlando José Lopes

Data:  9 e 10 de Junho de 2007

Local:Serra da Lousã

Relatório:

 

Caros amigos,


O sucesso do passeio dos duros na serra da Estrela (partes 1 e 2), abriu caminho a uma nova aventura deste tipo, e assim, foi com grande entusiasmo e expectativa que se acolheu a ideia do Orlando de fazer uma travessia da Serra da Lousã, em autonomia, ligando a povoação da Lousã á povoação de Góis.

Alinharam nesta aventura, para além do Orlando (o nosso organizador, que após este evento ficou mais conhecido como o “Herr Direcktor”), a Maria João, o Paulo Mazzetti e a Paula Afonso, o Jacinto e a Olga Modesto, o António Campos (eu), o Fernando Gonçalves, o Paulo Magueijo, a Sandra Afonso (irmã da Paula), e o Paulo Alves (um dos fundadores do clube Rituais, uma organização do género da Obeta, também habituado a estas andanças...
Foi portanto com um grande espírito de aventura, que alguns dos elementos rumaram logo na Sexta-feira ao fim do dia para a bonita vila da Lousã, o local onde tudo teve início.

No dia seguinte os restantes elementos participantes haviam de se lhes juntar para dar início a este périplo.


Sexta-Feira, 8 de Junho:

O Paulo Alves foi dos primeiros a chegar ao local de encontro visto que andava quase há dois dias aos pinotes pela serra da Lousã, montado no seu samurai “Cabrio” !!!.
Logo de seguida, por volta das 19 h, chegou o António com o Fernando e o Paulo Magueijo.
Foram os quatro jantar aproveitando a oportunidade para “cortar na casaca” dos atrasados…
O Paulo Mazzetti chegou quando tecnicamente já era Sábado, isto é, já passava alguns minutos depois da ½ noite. Escusado dizer que sendo um dos que caía na classificação de “atrasados crónicos” sentia já as orelhas a arder de tanta má-língua… :-)

Após uma breve olhada á cartografia e ao percurso planeado fomos todos para o “choco” já que o dia seguinte iria começar cedo e prometia uma jornada exigente!


1º dia do evento – Sábado, 9 de Junho:

Partimos por volta das 9.30H da manhã, após o encontro com o pessoal que só chegou nesse dia e a toma em grupo de um reconfortante cafezinho matinal no estabelecimento da esquina.

Íamos bem carregados, com mochilas que pesavam entre os 8 e os 12 quilos, porque levávamos todo o material necessário a uma expedição em autonomia:

- Tendas, sacos-cama, colchonetes, artigos de higiene pessoal, alguns artigos de roupa, fogareiros portáteis e algum material de cozinha, comida e bebida para 3 refeições.

Alguns dos participante chegaram mesmo a levar “pequenos luxos” que no entanto foram muito bem recebidos pelo resto do grupo, com quem eles tiveram a generosidade de os compartilhar. Foi o caso do Paulo Alves com a sua “pinga energética” , bem como o do Jacinto e Olga que se deram inclusivamente ao trabalho de transportar café e chá solúvel com colheres, copinhos de plástico e açúcar a acompanhar (!), o que nos permitiu beber um cafezito decente em algumas das refeições que tomámos durante o percurso.
Foi sem duvida uma óptima ideia !

No inicio da caminhada começámos por percorrer algumas das ruas da vila da Lousã rumando de seguida em direcção ao seu castelo que, curiosamente e contra todos os princípios estratégicos e militares, fica sobre uma pequena elevação, mas situada no fundo de um vale !
Mas logo aqui se registou um primeiro desencontro; a maioria do grupo tomou um caminho enquanto o Mazzetti e o Paulo Alves, que ficaram para trás a acertar a tecnologia dos seus GPS, acabaram por tomar outro percurso, que por sinal se veio a revelar o mais directo.
Resultado: ficaram ½ hora à espera do resto do grupo, junto ao castelo.

Após o reencontro, o grupo já todo coeso, começou a difícil ascensão da serra da Lousã, primeiro por estradas de terra, e depois por trilhos de pastores cheios de vegetação e apresentando uma inclinação já bastante razoável.

O tempo estava ideal para estes passeios, pois estava um pouco nublado, o que permitia que houvesse uma certa brisa no ar, mas não ameaçando chover.

A certa altura durante a subida, estando eu distraído, meti o pé num buraco enorme, e tendo sido empurrado pelo peso da mochila, acabei por ficar apenas com os braços e a cabeça de fora.
Depois de se certificarem de que não me tinha aleijado, os meus colegas de aventura fartaram-se de rir com o episódio. São uns malandros !

Continuando a ascensão chegámos a uma das típicas aldeias serranas, de casas feitas de xisto; o Talasnal, uma aldeia bonita mas já um pouco virada para o turismo, possuindo pequenas lojas, um restaurante e várias casas para vender ou alugar.

Após uma pequena pausa para descanso e uma pequena bucha, retomámos o percurso, há saída da aldeia, mas desta vez por uma boa estrada florestal.
Alguns quilómetros mais á frente, no meio de um bosque parámos então para o típico almocinho de sandochas e água… :-(

Retomamos novamente a caminhada para continuar a fazer quilómetros e a subir, usando quer estradas alcatroadas, quer caminhos florestais. O percurso levava-nos em direcção ao ponto mais alto da serra da Lousã, o castelo do Trevim, o qual ia ficando cada vez mais próximo.

A ascensão, que começou junto ao castelo da Lousã, a uma a uma altitude aproximada de 250m estava agora prestes a atingir o seu ponto máximo, no cume da serra da Lousã, a 1200 metros de altura.
E tudo isto carregando mochilas pesadas, o que atesta bem da dureza desta aventura!

No entanto, apesar da dureza do percurso, há que salientar a boa disposição do pessoal, para a qual contribuíam as inúmeras anedotas, que iam sendo contadas ao desafio pelo Jacinto e pelo Paulo Alves.

O Fernando, com os seus inúmeros gritos de incitamento também ajudava á festa apesar de por vezes parecer que estávamos no meio de um jogo Benfica-Sporting e não a realizar uma caminhada na serra...

Depois de alcançarmos o Trevim continuamos o percurso, desta vez a descer, em direcção à povoação de Aigra Velha, a qual marcaria o ponto final da jornada prevista para este dia.
A aldeia, situada a 850 m de altitude, pouco mais possuía que uma dúzia de casas, mas estava muito bem arranjada.

Acabamos por montar as tendas num pinhal situado a 100 m da povoação e junto a uma pequena fonte de água fresquíssima que irrompia de dentro da terra naquele local.

Durante a preparação do acampamento, registou-se um episódio deveras rocambolesco e humorístico, associado á montagem da minha nova tenda:

- É que depois de ter tentado sem sucesso monta-la sozinho, acabei por solicitar a ajuda dos colegas que entretanto já tinha terminado a montagem das suas tendas.
Mas o raio da tenda tinha uma estrutura muito esquisita, que não se parecia com nada que já tivéssemos visto!

Foram necessárias pelo menos seis pessoas, 30 minutos e muitos palpites para se conseguir perceber como aquilo se devia montar!
No final a tenda revelou ser um coxixo, praticamente sem espaço interior e assumindo a desencorajante forma de uma tumba egípcia !!!

Ultrapassado este pequeno périplo com a minha tenda chegou a altura do pessoal se dedicar á higiene e limpeza, o que permitiu revelar os “estragos” que uma caminhada de montanha de 21 km , com mochilas sobrecarregadas pode fazer aos pés…

O Mazzetti e o Magueijo eram as maiores vítimas, ostentando cada um deles umas enormes bolhas, as quais trataram da melhor forma possível, atendendo aos limitados recursos disponíveis.

Seguiu-se a paparoca, desta vez com comida quentinha, originalmente liofilizada e acondicionada em pequenos pacotes de 100g.
Para a sua preparação bastou um tacho ou dois, água e os pequenos fogareiros portáteis que o Mazzetti, o jacinto e o Orlando traziam.
A “ementa” era constituída por arroz de Caril e massa com carne.

A perspectiva de uma refeição quente trouxe logo outro ânimo ao pessoal, motivo porque o jantar acabou por se tornar muito animado, com bastante conversa e trocas de mais algumas piadas.
No final ainda fomos presenteados pelo Jacinto e Olga com um cafezinho ou chá quente que soube deliciosamente bem !
São de facto estes pequenos prazeres que fazem toda a diferença!

Com a barriga mais composta e o cansaço de um dia de actividade a pesar sobre o corpo acabamos por recolher ás tendas pouco tempo após o jantar.

Com a noite veio a chuva. Já se dormia profundamente, quando por volta das 4, 5 horas da manhã, começou a chover.
Inicialmente de uma forma tímida e episódica, mas á medida que a madrugada se ía aproximando, mais intensamente , quase de forma torrencial, só tendo parado por volta das 8.00 h da manhã.
As tendas mais frágeis, ou menos bem montadas foram as que mais sofreram tendo os seus ocupantes acordado com os pés metidos dentro de água!
Foi o caso do Paulo Alves e do Paulo Magueijo.
A Maria João e o Orlando também foram surpreendidos pela chuva, mas por motivos diferentes; acontece que se esqueceram de fechar a abertura da tenda antes de adormecerem!


2º dia do evento – Domingo, 10 de Junho:

Por volta das 8.00 H da manhã, o S.Pedro lá em cima, fechou um pouco a torneira e deu-nos um intervalo de 2 horas, que aproveitámos para desmontar as tendas, tomar o pequeno-almoço, e pôr-nos a caminho.

Já de novo debaixo de chuva, seguimos por um estradão de terra, que nos levou até à aldeia da Pena. Foi aqui que descobrimos que a Paula fazia anos, de forma que, cantámos-lhe os parabéns e o Jacinto improvisou um “buquet” de flores para lhe oferecermos.

Depois continuámos a nossa aventura, e foi então que o organizador (muitas vezes também designado durante o passeio como o "Her Direktor", para uns, ou o “gajo dos mapas”, para outros; isto é; o Orlando para os menos entendidos…), insistiu em fazer um "caminhozinho maneiro"...
E lá fomos nós, tal qual espanhóis a descobrir a América latina, por caminho estreito e acidentado, entre mato alto e muito molhado.   Tudo isto, debaixo de chuva, claro!

Parecia que estávamos no meio da Amazónia!!!

Umas escorregadelas e muitas picadelas depois lá chegamos ao "fim" do dito caminho pois desembocamos numa garganta profunda, aparentemente sem saída.
Voltamos atrás, tentamos descer e passar o ribeiro que corria lá em baixo, subir novamente e ter que voltar para trás porque era outro caminho sem saída...

Mais á frente fizemos outra tentativa e desta vez parecia que acertavamos com uma passagem;   umas escorregadelas e uns pés e rabos (uns mais bonitos que outros…) na água, mas lá conseguimos todos passar o ribeiro...

E depois, mais uma subida num trilho florestal para abrir o pulmão, pois claro, que isto é para duros!
A meio da subida chegamos a uma clareira onde resolvemos parar para comer qualquer coisa, já que era hora do almoço.

Já a refeição ía a meio quando o S.Pedro achou que já estávamos muito secos e resolveu brindar-nos com mais uma carga de água em cima do lombo…  Uma alegria !!!

Prosseguindo então pelo trilho, fomos desembocar numa estrada alcatroada que nos levou até á aldeia de Esporão.
Mas durante este percurso os teóricos do GPS, o Orlando e o Fernando, envolveram-se em diversas desavenças sobre qual o caminho mais indicado para seguir.
Já não havia pachorra para os ouvir !

Na aldeia ainda parámos para comer um gelado e descansar um pouco as pernas, aproveitando o ocasional período de sol que acontecia quando este conseguia irromper pelo meio da cortina de nuvens cinzentas que toldavam o céu.

Retomamos o caminho, tendo saído da via alcatroada um pouco á frente da povoação, para tomar outra estrada florestal que se apresentava á nossa direita.
Essa estrada dirigia-se para Góis, o ponto final da nossa caminhada, e acompanhava o vale do rio Ceira.
Tivemos assim a oportunidade de admirar os pequenos e belíssimos açudes que o rio ia apresentando ao longo do caminho.    Estivesse o tempo melhor e que belos lugares seriam aqueles para tomar uma boa banhoca !

A dois quilómetros de Góis cruzamo-nos ainda com uma original família inglesa que estava aparcada com a sua caravana - uma espécie de camião antigo de caixa fechada convertida para o campismo – num pequeno terreno situado á beira da estrada florestal que seguíamos.

Ela contou-nos que pretendiam construir na zona uma casa tradicional de xisto e madeira para viverem parte do ano em Portugal.   E para isso até já tinham adquirido um terreno na serra da Cabreira!
A moça era deveras simpática mas tinha um aspecto um pouco estranho:
- Em termos de piercings nas orelhas e nariz, conseguia ostentar mais metal que a pequena vedação da quinta onde tinham a caravana aparcada !!!

Já com o cansaço acumulado de uma marcha de 12 quilómetros, lá chegámos finalmente a Góis, o nosso destino final.

Após algumas fotos finais de grupo tiradas junto á bonita ponte sobre o rio Ceira, fomos á procura de um café onde pudéssemos descansar as pernas e os pés e comer e beber qualquer coisa.
Encontramo-lo no largo histórico a seguir á ponte e por sinal era o único que estava aberto.

Enquanto o resto do pessoal ficou a descansar naquele local, os condutores regressaram de táxi à Lousã, para ir resgatar os carros que lá tinham ficado, voltando com eles para Góis para recolher o resto da malta.

Uns partiram imediatamente para as suas casas, mas outros ainda ficaram a jantar em Góis naquele cafezito. (Nota do WebMaster:   que por sinal tinha uma chanfana e um cabrito deveras deliciosos…)


Conclusão:

Foi de facto uma grande jornada de aventura em que temos que enaltecer a força de vontade, a determinação, e a boa disposição, que os onze participantes sempre demonstraram ao longo dos 36 Km deste duro périplo.

Não posso no entanto deixar de destacar a Paula Afonso, que nos deu a honra de passarmos o dia de aniversário com ela, e a sua irmã; a Sandra Afonso, que nunca tinha participado num passeio desta dureza, mas que esteve sempre à altura do desafio.

Também é de referir o Paulo Mazzetti e o Paulo Magueijo que, apesar das bolhas enormes que possuíam nos pés, nunca se queixaram nem desistiram, tentando sempre acompanhar o andamento do resto do grupo.

Uma palavra igualmente para realçar a boa disposição e grande espírito generoso de ajuda da Olga e do Jacinto, que se mostraram sempre incansáveis e prontos a ajudar.

E finalmente uma palavra de apreço para os novos participantes, Paulo Alves, Paulo Magueijo e Sandra Costa, esperando que tenham apreciado o evento e fazendo votos para que seja possível contar com eles em futuras realizações.

 

Saudações radicais

         António Campos

 

 

 

(Textos de António Campos e Paulo Alves livremente adaptados e comentados por Paulo Mazzetti)