3º Prova “Rota do presunto” – Participação na prova de meia maratona

Organização:    BTT – Clube de Chaves

Data:    23 de Setembro de 2007

Local:  Cidade de Chaves e arredores

Relatório:

 

Caros amigos,


No passado dia 23 de Setembro de 2007  três "Obetas", o Paulo, o Carlos e o António Campos, resolveram participar na 3ª edição da meia-maratona da "Rota do Presunto", que se desenrolou em Chaves.
Aqui fica o relato dos eventos, tal como foram vistos pelo Paulo:


Sábado, 22 de Setembro:

- Na véspera do evento chegamos a Chaves ao fim da tarde, por volta das 19 h.
Tendo saído de Lisboa por volta das 15 h, levamos “apenas” 4 horas a colocar-nos no nosso destino. Tudo por “culpa” das novas vias de comunicação recentemente construídas, nomeadamente a A24, cujo trajecto desde Viseu a Chaves já está totalmente construído.
Felizmente que já lá vão os tempos em que se gastava quase de um dia completo de viagem para fazer os 450 km que separam esta cidade de Lisboa.


Á chegada, a cidade já começava a mergulhar no lusco-fusco do fim da tarde. Fomos logo para a residencial colocar as malas e em seguida dirigimo-nos para o local de reunião dos participantes e centro logístico de todo o evento; o chamado "Largo das Freiras”, em pleno centro histórico da cidade.

Depois de termos confirmado a nossa participação junto dos elementos da organização presentes no local e de termos recebido o habitual saco de recordações onde não faltava a t-shirt da ocasião, tivemos a oportunidade de retemperar as forças com o excelente bufete que a organização providenciou aos participantes.
Este decorreu no recinto da escola secundária situada em frente ao referido largo.


Do “menu” constava o excelente presunto da região – o qual dá o nome a esta prova – bem como broas e bolas diversas, sem esquecer os famosos pasteis de chaves, recheados de carne picada. Tudo isto acompanhado por um bom tintol da região.
No final ainda houve uma distribuição de caldo verde, o que veio mesmo a calhar para aconchegar o estômago.

Após a refeição ainda demos um pequeno passeio pelo centro histórico da cidade.

Chaves, sendo uma cidade muito antiga, adquire á noite uma atmosfera misteriosa e sedutora conferida com a iluminação especial dos monumentos e dos bairros históricos.
Também a zona situada junto ao rio Tâmega, na qual se inclui a ponte romana de Trajano, é de grande beleza e não é por acaso que constitui o ex-libris da cidade.
Após este curto passeio regressamos à pensão para ir dormir e recuperar forças visto que o dia seguinte prometia ser bastante duro…

 


Domingo, 23 de Setembro:

- O despertar ocorreu por volta das 8.00 h. Depois de tomado o pequeno-almoço seguimos no automóvel para o local de início da prova, o já referido largo das freiras.
Estacionamos o veículo no parque de estacionamento junto ao forte, que fica por trás do referido largo e realizamos as ultimas afinações nas bicicletas antes de nos dirigirmos para a zona da partida.
E foi nesta altura que ocorreu comigo um episódio bastante desagradável que poderia ter posto em causa a minha participação neste evento:

- É que ao iniciar a marcha na minha bicicleta, tentei efectuar a mudança da corrente no carreto da roda traseira e o desviador (a peça que controla a posição da corrente sobre os vários carretos) ficou preso nos raios da roda.
Resultado; desviador partido e bicicleta incapacitada para deslocação. Que bonito serviço !
E o mais grave é que a referida peça, o desviador, era novo e tinha sido colocado dois dias antes numa loja da Decathlon, o que atesta bem da qualidade do trabalho realizado naquele local!
Devem imaginar a minha disposição depois de me ver impedido á ultima da hora de participar neste evento, para o qual tinha feito 450 km de deslocação!


Felizmente que os elementos da organização tiveram pena de mim e colocaram á minha disposição uma bicicleta de substituição, a qual aliás, se veio a revelar de melhor qualidade do que a minha.
De facto pode-se dizer desde caso que há males que vêm por bem!

Após a resolução deste pequeno acidente que podia ter redundado num fracasso completo se não fosse a existência da tal bicicleta alternativa, iniciamos a prova passando na zona de controlo “0”, situada ainda no interior do centro histórico da cidade.

Este seria o primeiro de cinco controlos pelos quais teríamos que passar ao longo de toda a prova, antes de atingirmos a meta, no mesmo local, seis horas depois e já com 45 a 50 km rodados !
Creio que nenhum de nós á partida tinha a certeza de conseguir chegar ao fim, visto que não participamos com regularidade neste tipo de eventos (de facto não participamos mesmo de todo…).

E se á partida, à saída da cidade, ainda pudemos rodar com facilidade sobre o alcatrão, rapidamente verificamos que o panorama iria mudar quando o abandonámos para iniciar uma difícil ascensão de 3 km por caminhos de terra batida, em direcção aos montes que ficam a norte da cidade.

No início ainda se conseguia subir razoavelmente, mas há medida que o tempo passava e o grau de inclinação aumentava, os músculos sem preparação começaram a “gemer”, o fôlego a escassear e as forças a faltar !

É precisamente nestas alturas em que o coração nos parece querer sair pela boca e nos damos conta que estamos a ficar para trás - porque toda a gente à nossa volta nos ultrapassa com o maior à-vontade - que colocamos a nós mesmos a famosa pergunta de um milhão de dólares:“Mas o que raio estou eu a fazer aqui ? “

A consolação é que verificamos rapidamente que outros participantes também colocam a si próprios a mesma questão e o facto de não estarmos isolados na desgraça dá-nos algum ímpeto para prosseguir…
Além disso as subidas não são eternas e lá no fundo temos sempre a secreta esperança de que há-de chegar em breve o ponto de maior cota. Assim, mal ou bem, lá vamos vencendo a subida, montados nas “biclas” sempre que possível ou a andar com elas ao lado, quando as forças já não dão para mais…

Foi o que se passou nesta primeira subida da prova, a qual serviu logo como “filtro” seleccionador, permitindo que os verdadeiros craques se distanciassem do resto da trupe, amadora e mal preparada, na qual nos incluíamos.

Foi logo nesta altura que o amigo António Campos nos disse adeus, passando a acompanhar o grupo dos que iam na frente.
É que isto de pesar 50 kg e correr todos os fins-semana meias maratonas dá realmente os seus frutos…

Para trás fiquei eu e o Carlos que, com mais quatro a cinco participantes, passamos a constituir o pelotão dos lanterna-vermelha. Mas a nossa posição não era apenas por mérito próprio (ou melhor dizendo, por falta dele…).  Não senhor !
É que o Carlos, num gesto de grande abnegação, parava sempre para dar assistência a algum participante que tivesse algum problema com a sua bicicleta.
Isto sim é que é verdadeiro desportivismo !

Obviamente que nenhum de nós tinha qualquer pretensão a fazer um bom tempo ou a tentar obter um bom lugar na classificação.
De facto toda a gente neste grupo estava imbuída do mesmo espírito; participar pelo convívio e pela oportunidade de realizar alguma actividade física na natureza.
E isso é ao fim ao cabo o mais importante !

E foi assim, que em ritmo de passeio, fomos progredindo na prova fazendo quilómetro após quilometro…

De realçar o excelente papel da organização que teve o cuidado de preparar os caminhos para a passagem dos participantes, desbastando as ervas e os arbustos, colocando inúmeras marcas para assinalar a rota e providenciando vários pontos de reabastecimento com bebidas e comida, para além dos pontos de controlo da progressão.

A escolha do percurso também foi muito feliz, apesar de bastante exigente para pessoas que como nós, possuem pouca ou nenhuma experiência neste tipo de actividades.

De facto setenta a oitenta por cento do percurso foi sempre fora de estrada, quer por carreiros nos montes, que permitiam o desfrute da paisagem ampla e bonita de Trás-os-Montes, quer por estradões florestais que seguiam pelos vales, ora atravessando zonas de floresta, ora acompanhando o curso de rios.

Neste ultimo caso é de realçar o troço efectuado quase no final da prova, onde acompanhamos durante alguns quilómetros o rio Corgo, seguindo pelo caminho formado pela antiga via ferroviária de bitola estreita – infelizmente hoje já desaparecida - a qual ligava o Douro á cidade de Chaves. Um percurso realmente de grande beleza.

De vez em quando atravessávamos uma aldeia de montanha , onde a nossa passagem era sempre motivo de festa e regozijo para os habitantes e sem duvida um tema de conversa para as semanas que se avizinham.

O grau de exigência da prova era conferida não só pelas várias subidas que o percurso possuía - algumas delas com um grau de inclinação bastante razoável - mas também pelas descidas que normalmente se seguiam, feitas em velocidade elevada por veredas e caminhotos rurais - as quais exigem da parte do ciclista um controlo da bicicleta e uma capacidade de atenção muito grande por forma a evitar as pedras e os arbustos que se iam interpondo na progressão.
Mas são estas dificuldades que acabam por dar emoção a este desporto!

Á medida que as horas iam passando e os quilómetros já feitos se iam acumulando, também o calor ia aumentando.
E no campo, o calor é sinónimo de moscas! De facto esses infernais insectos não paravam de voar á nossa volta, tentando pousar constantemente sobre a nossa pele, que estava pegajosa do suor acumulado.
Alguns participantes lamentavam-se dizendo que levavam consigo moscas de “estimação”, pois parecia que os bichos os perseguiam durante quilómetros !

Mas, apesar das moscas, apesar das subidas ou descidas de maior ou menor declive, apesar dos rabos e pernas doridos, e com mais ou menos conversa entre nós, lá fomos vencendo paulatinamente o percurso definido para a meia-maratona.
E foi assim que, ao fim de quase 50 quilómetros realizados entramos de novo na cidade de Chaves, para cruzar a meta muito perto do local de onde tínhamos partido seis horas antes!
O António - que já tinha chegado há muito tempo - era um dos poucos resistentes que - para além dos vários elementos envolvidos na organização - ainda aguardava a chegada dos últimos concorrentes, não hesitando em aplaudir o nosso esforço.

Depois de concluída a logística associada ao arrumo das bicicletas nos veículos e tendo tomado um bom banho nos balneários da piscina municipal de Chaves– que para o efeito foram colocados á disposição dos participantes – chegou a altura de recuperar as forças com um almoço-lanche oferecido pela organização.

A refeição realizou-se no mesmo local onde na noite anterior tinha decorrido o bufete de recepção aos participantes, ou seja, no pátio do recreio da escola secundária situada no largo das freiras, no centro histórico da cidade.

Como entradas registou-se, para além do clássico presunto e dos inefáveis pastéis típicos da cidade, umas espetadinhas grelhadas que estavam um mimo! Seguiu-se o prato de resistência; uma boa feijoada transmontana acompanhada de arroz branco. Para finalizar pudim e fruta da época.
Tudo regado claro com o bom vinho tinto da região!
Posso garantir que naquela altura ninguém se preocupou com grandes dietas!

Durante a refeição voltamos a reencontrar os outros participantes com quem tínhamos rolado durante muitos quilómetros, tendo a oportunidade de comentar os vários acontecimentos que se desenrolaram durante o percurso.
Todos foram unânimes nos elogios á boa organização da prova, que esteve a cargo do BTT clube de chaves.

Após a refeição, já ao fim da tarde, ainda voltamos a dar um pequeno passeio digestivo pela cidade, findo o qual iniciamos o caminho de regresso a casa.

 


Conclusões:

Participar numa prova de BTT não é o mesmo que fazer uma caminhada ou descer um rio de kayak.
O grau de exigência é consideravelmente mais elevado, exigindo a forte participação dos principais músculos da pernas, uma boa capacidade cardio-respiratoria, grande resistência física e um grande controlo sobre a bicicleta, nomeadamente aquando da realização de descidas em velocidade por trilhos de montanha.
E por tudo isso é um desporto que não se compadece com a má-forma física.
Assim penso que há duas formas de encarar a participação neste tipo de eventos:

- Ou se opta pela postura “á campeão”, na qual se participa pelo factor competitivo, tentando bater tempos e chegar na melhor posição possível (postura que obviamente exige boa preparação, treinos regulares e uma forma física condizente, para além de uma boa “maquina”)

- Ou se opta pela postura “á passeio”, mais desleixada sem duvida, mas na qual o objectivo não é competir mas sim participar, conviver e usufruir da paisagem e dos locais por onde se vai passando.

E se encararmos esta actividade segundo este ultimo ponto de vista rapidamente concluímos que apesar de tudo, as vantagens compensam bem as dificuldades inerentes a esta prática.
E foi o que mais uma vez se constatou nesta prova, onde a confraternização, o espírito de entreajuda, os locais e as paisagens valeram bem o esforço aplicado, o qual - também se diga em abono da verdade - sempre vai ajudando a manter alguma forma física, apesar desta vida sedentária e doentia que normalmente levamos no dia-a-dia.

 

Saudações radicais

         Paulo Mazzetti