Ascensão ao Aneto, a montanha mais alta dos Pirinéus


Aneto Data de Realização:  Entre 27 e 30 de Agosto de 2009

Organização:  Obeta - Orlando Lopes e Fernando Gonçalves

Local:   Pirinéus Centrais, Parque Natural de Posets-Maladeta, vale de Benasque

Grau de dificuldade:  Muito difícil (exige boa forma física)

Extensão aproximada:  18 km

Duração aproximada:  12 a 14 h

Tipo de troço:  Percurso técnico de alta montanha

Elevação mínima:  2140 m (refúgio de Renclusa)    Máxima:3404 m

Motivos de interesse:
Paisagem de alta montanha, ascenção ao pico mais alto dos Pirinéus

Relatório:

Este era um objectivo antigo, já várias vezes tentado por alguns de nós mas nunca conseguido por motivos vários.
Desta vez tinha mesmo que ser, devido à perseverança e força de vontade do nosso amigo Fernando Gonçalves que veio de transportes públicos ter comigo e com a João a Benasque, local de partida para a grande aventura.
Convém avisar futuros aventureiros que é essencial uma boa preparação física para conseguir este objectivo, que foi dos mais difíceis de alcançar, até hoje.
Felizmente nós já tínhamos um mês de treino de montanha nas pernas, incluindo a travessia a pé da Catalunha. e o Fernando também não descurou os treinos durante o Verão.

A adrenalina aumentava com o aproximar do dia: preocupava-nos a previsão de alguma chuva para a tarde de 6ª feira dia 28 de Agosto.
Ficámos a saber que era aconselhável levar cordas e arnês embora não o tivéssemos feito e que parte dos aventureiros levavam guia.
Ao consultarmos a lista de preços, tirámos logo daí a ideia: ficava no mínimo a 73 euros por pessoa...
Encontrámo-nos na quarta-feira, 26 pelas 19.30h, jantámos em Benasque enquanto assistíamos ao Fiorentina-Sporting e dormimos em Cerler, localidade com estância de skis, de onde se pode desfrutar de uma excelente panorâmica sobre o vale.
Em Agosto de 2008 já cá tínhamos estado com o Mazzetti e a Paula. Nessa altura jantámos num restaurante muito agradável onde comemos bem e bebemos melhor... mas desta vez ainda não era ainda altura de comemorar.

A manhã do dia seguinte foi para preparar a viagem: houve que alugar crampons para podermos atravessar o glaciar e comprar alguns mantimentos. Aneto Após o almoço, partimos de carro até ao parque de estacionamento na entrada do Parque Natural. A partir daí, um autocarro transportou-nos mais cerca de 4 km até La Besurta, local onde começava a subida.
Cerca de 40 minutos de viagem e atingimos o refúgio da Renclusa, a cerca de 2100m de altitude, ponto de partida quase obrigatório para quem vai ao Aneto. Desde a nossa última visita, há uns anos, as condições melhoraram substancialmente: o edifício foi alargado, já há banho da água quente e tomadas eléctricas nos quartos.

Após um bom jantar, fomos dar um pequeno passeio. Fizemos amizade com as simpáticas mulas que trazem diariamente os alimentos frescos para o refúgio (não existem estradas até lá) e visitámos uma pequena capela construída numa caverna por debaixo da rocha a cerca de 200 metros do refúgio. Cerca das 22.00h é o recolher obrigatório.

Sexta-Feira, 28 de Agosto:

Alvorada às 4.30h! É altura de se fazerem as últimas verificações do material.
Aneto Após um nutritivo pequeno-almoço, chega a hora da partida.
São 6.00 horas e teremos que usar lanternas pela menos durante uma hora.
A primeira dificuldade começou logo à saída do refúgio: o caminho não estava marcado de forma visível e não foi fácil começar a subida. Resolvemos guiar-nos pelas luzes dos montanheiros que se viam serra acima e lá fomos ganhando altitude.

Ao longo do percurso vimos os conhecidos montes de pedra de forma triangular que nos pareceram inicialmente úteis para nos indicar o caminho. Mais tarde verificámos que não era bem assim: nem todos seguiam o caminho correcto pelo que a melhor opção era seguir o GPS onde tínhamos colocado de forma rigorosa alguns pontos obrigatórios de passagem.

Como cometemos o duplo erro de seguir as pedras e as pessoas que iam à nossa frente, acabámos por ir ter ao “falso portillon” que, como o nome indica, é uma falsa passagem para o vale do Aneto, só possível através do “portillon superior”.
Detectámos o erro quando a passagem pelas rochas se tornava cada vez mais difícil e perigosa!
Nessa altura eu e a João resolvemos voltar uns metros para trás e contornar o maciço por baixo (caminho oficial) enquanto o Fernando, um pouco mais à frente, passada a parte mais perigosa da passagem, verificou que o caminho continuava na direcção certa e seguiu por ele.
Encontrámo-nos um pouco mais à frente.

Com cerca de três horas de caminho, atingimos finalmente o “portillon superior” onde a paisagem muda completamente: já se vê o glaciar do Aneto, os picos vizinhos do Maladeta e o próprio Aneto. Aneto
Após uma descida quase vertical de cerca de 15 metros, começou a subida da grande cascalheira, que levámos imenso tempo a atravessar, devido à irregularidade e dimensão das pedras.
Houve momento em que tivemos que trepar por elas o que se tornava tudo mais cansativo!

Aqui o Fernando ganhava terreno e esperava por nós mais à frente enquanto eu ia ajudando a João nas partes mais difíceis da cascalheira.

Cerca do meio-dia atingimos o gelo do glaciar, sendo necessário calçar os crampons.
Nesta altura do ano, como é natural, o gelo está rijo, tornando-se necessária muita precaução ao atravessá-lo. Felizmente havia um pequeno trilho feito pelos outros montanheiros, o que nos facilitou a vida. Aneto
Estávamos agora bem perto da base do Aneto. Faltava “apenas” trepar cerca de 300 m em altitude!
O primeiro troço que se seguiu era novamente cascalho: lá tivemos que descalçar os crampons, para os voltar a calçar um pouco mais acima numa língua de gelo extremamente inclinada e difícil e tornar a tirá-los na última subida que era novamente cascalheira.
Um grande aborrecimento!

Pelas 13.30h atingimos o nosso objectivo (ou quase!).
Chegados ao topo da montanha, vimos que a famosa cruz metálica se encontrava um pouco mais à frente e que para lá chegar seria necessário atravessar o “El Paso de Mahoma”, nome posto mesmo a propósito: trata-se de um muro de calhaus irregulares com um abismo de vários metros dos dois lados, nada aconselhável a quem sofre de vertigens!
Aneto Eu estive alguns minutos à espera que uma montanheira viesse em sentido contrário e a cara da rapariga não motivava nada a ida até à cruz...
Mas já que ali estávamos, era altura do último sacrifício! Ignorámos as dificuldades e, mesmo com as pernas a tremerem um pouco, eu e o Fernando lá fizemos a passagem.
Aconselhei a João a não tentar porque o troço era de facto extremamente perigoso: caso alguém entrasse em pânico a meio, seria muito complicado tirá-la dali.

Aneto
E finalmente lá atingimos a cruz, que marca o local mais alto da cadeia dos Pirinéus. Momento histórico!

Tirámos as fotos da praxe e apreciámos a paisagem dos vales a Sul, apesar de o nevoeiro nessa zona não permitir grande visibilidade.
Curiosamente, ao voltar para junto da João fiquei surpreendido com a aparente facilidade sentida na passagem no regresso!

Entretanto chegou a hora de almoçar e de enviar sms’s a assinalar o feito (havia rede francesa naquele local!).
Tivemos imensa sorte com a meteorologia: não apanhámos chuva, o nevoeiro não incomodou muito e mesmo a temperatura lá em cima estava amena.
Eu e a João fizemos o percurso em calções!

No regresso resolvemos tentar um caminho diferente: após o gelo do glaciar, em vez de nos dirigirmos ao “portillon superior”, continuaríamos a descer o vale até ao local onde o autocarro nos deixou. Pensávamos que depois bastaria subir os tais 40 minutos até ao abrigo onde deixáramos o material não necessário.
Aneto
Só que os nossos planos falharam: a descida pelo gelo (desta vez sem o trilho dos outros caminheiros) revelou-se mais perigosa e por isso mais demorada.
Com o avançar da tarde, o lago mais abaixo que nos servia de referência de passagem - já que não havia trilhos visíveis - havia já desaparecido no nevoeiro. Para além disso havia outro grupo à nossa frente a tentar o mesmo percurso que entretanto também já desaparecera igualmente de vista! A situação estava de facto a ficar complicada...

Resolvemos então tomar então o caminho clássico.
Após “partir” muita pedra, atingimos de novo o caminho que tínhamos feito na subida e mais algum tempo depois, a parede do “portillon”. Depois foi escolher de entre as várias propostas que os marcos de pedra nos apresentavam, o melhor caminho para descer até ao abrigo.

Já escurecia quando finalmente atingimos o abrigo (eram 9 da noite).
O Fernando chegara uns minutos antes porque numa bifurcação, já farto de tanta pedra, resolveu seguir um trilho de terra (que luxo!).
Encontramo-nos junto ao rio que corre perto do abrigo, mas infelizmente na margem errada!
Lá tivemos que voltar para trás para dar com o caminho para a margem correcta!

Á chegada começaram as más notícias: como não tínhamos reservado a pernoita para essa noite (contávamos ir dormir a Benasque) informaram-nos que não tínhamos vaga! Isso significava que, além de perdermos o jantar, teríamos ainda pela frente mais duas horas de caminho a pé até ao carro porque já não havia camionetas...

Restava-nos uma ténue esperança de alguma desistência: para isso teríamos que esperar até às 22.00 horas. Pensámos então no plano B: dormir no único local abrigado possível naquela zona: a capela talhada na rocha!
Mas como a sorte protege os audazes (?), poucos minutos depois informaram-nos que haviam desistido três pessoas!!! Já tínhamos cama!
E apesar da hora tardia, coisa muito rara nestes refúgios, convidaram-nos para jantar!
Aneto
Deste modo terminámos da melhor maneira esta aventura!
Houve ainda tempo para informar os responsáveis do abrigo que um grupo de seis pessoas descia atrás de nós, tendo chegado apenas quatro. Felizmente não tinha havido nenhum problema (já várias pessoas perderam a vida nesta ascensão):
- No dia seguinte informaram-nos que os dois restantes (um guia e o respectivo caminheiro; o Júlio, que era muito lento!) tinham chegado perto das 23.30h.

Como já tive oportunidade de dizer, o percurso é muito exigente em termos físicos e não é sequer dos mais bonitos (pelo menos para quem passou um mês a caminhar nos Pirenéus, tendo visto já muita coisa)!
Mas vale sempre a pena pelo facto de ser o ponto mais alto dos Pirinéus e também no nosso caso, pela sensação de dever cumprido, já que há vários anos desejávamos realizar este evento e por um motivo ou outro, até à data não tínhamos ainda conseguido concretiza-lo.
Aconteceu agora!

Saudações Radicais

              Orlando

(Textos de Orlando Lopes, adaptado por Paulo Mazzetti)