Caminhada em autonomia no Gerês

Mapa do Parque
Data do evento:   5 a 8 de Março de 2011

Local onde se desenrolou:
    Parque Nacional do Gerês

Tipo de Percurso:
    Linear, feito por trilho de montanha, com começo em
    Pitões das Júnias e final em Caldas do Gerês

Distância:  38 km aproximadamente

Duração:  4 dias, 3 noites

Relatório de Actividades:

Como estava combinado, os participantes encontraram-se no dia 5 de Março na povoação de pitões das Júnias para realizarem um almoço de convívio no conhecido restaurante “Casa do Preto”, o qual serviria como prelúdio para o périplo que se iria seguir.

Caminhada no Gerês

O objectivo é que a partida fosse feita logo a seguir ao almoço, às 15.00 h. Infelizmente, devido a alguns atrasos de participantes que chegaram mais tarde (nomeadamente do próprio organizador!), a partida acabou por acontecer algumas horas mais tarde.

E foi assim, já com a tarde bem avançada e sob um céu cinzentão e ameaçar chuva a qualquer instante, que um grupo de 10 pessoas formado pelo Paulo Mazzetti, o Ricardo Tomé, o António Barros, o Miguel Paiva, a Maria Kouzmova, o Orlando e a Maria João, o Fernando, a Vanda e o Tiago se fez ao caminho, de impermeáveis vestidos e mochilas ás costas, carregadíssimos com todos os haveres necessários para uma caminhada de vários dias, em autonomia na montanha.

Inicialmente tivemos alguma dificuldade em encontrar o caminho correcto à saída da povoação, tendo que perguntar a alguns habitantes a direcção a seguir. Como resposta, para além da indicação pretendida, também recebemos o conselhos de que deveríamos evitar partir para a montanha com aquele tempo, já que em qualquer altura poderia cair uma borrasca, um nevão repentino ou uma névoa que impediria a visão a mais de 2 metros!
Mas estávamos bem preparados, o tempo até parecia querer melhorar e estava fora de causa termos feito um caminho tão longo e demorado para agora desistir! Assim, de espírito animado, lá seguimos na direcção indicada, que era a de Porto da Laje.
Neste primeiro dia não fizemos uma distância muito grande já que a tarde ia avançada. Assim, quando chegamos ao Fojo, no sopé do monte que tem a ermida de São João no cimo, já passava das 18.00 h, tendo percorrido até aí uma distância de 5 km. Optamos assim por montar acampamento num bosque situado naquele local.
Enquanto uns montavam as tendas outros foram à procura de água para preparar a comida para o jantar.
Erigidas as tendas e tomada a refeição ainda conversámos um pouco, trocamos umas piadas e esboçamos umas tentativas irrisórias de cantar em coro algumas musicas muito conhecidas do reportório nacional, o que deu azo a algumas cenas bem hilariantes!

Mas como a noite já ia adiantada e no dia seguinte tínhamos que levantar cedo pois havia muito caminho a fazer, rapidamente recolhemos ás tendas para um bem merecido descanso…


Domingo, 6 de Março 2011:

Caminhada no Gerês

O dia começou muito bem, já que a manhã se apresentou solarenga e ostentando um maravilhoso céu azul onde não se via qualquer vestígio das nuvens ameaçadoras da véspera.
O percurso que tínhamos pela frente era ambicioso; ligar Pitões das Júnias ao Gerês sempre pela serra, seguindo caminhos que muitas vezes nem sequer estão assinalados nas cartas topográficos da região. Mas como não somos de esmorecer lá fomos caminhando com confiança. 

Há medida que subíamos a paisagem tornava-se mais ampla e apelativa! Na zona do Outeiro das Cervas, já acima dos 1000 metros, conseguíamos divisar com grande nitidez, recortando-se ao longe sobre o perfil do horizonte, a mancha azulada da albufeira da barragem da Paradela.

Há medida que as horas iam passando e a caminhada prosseguia, os vários elementos do grupo, cada um ao seu ritmo próprio, iam vencendo os vários obstáculos e dificuldades que se interpunham no caminho. Estes podiam ser desde o simples atravessamento de um pequeno ribeiro de águas cristalinas até à ascensão a algum cume ou monte mais íngreme, que apesar de exigir a todos os elementos da equipa algum esforço na subida (o qual era agravado pelo peso das mochilas que transportávamos ás costas), também os recompensava posteriormente com uma vista magnífica sobre o horizonte.
Tal foi o caso do local onde perto da hora do almoço paramos para comer e recuperar forças, depois de uma subida algo penosa.
Em frente a vista alcançava vários quilómetros. Como o céu estava descoberto e límpido era ainda possível divisar ao longe, recortando-se sobre a linha dos montes, a aldeia de onde tínhamos iniciado o périplo na véspera; Pitões das Junías.

Caminhada no Gerês

Após esta breve pausa retomamos o caminho o qual, de uma forma geral, nos guindava a novas alturas. De tal modo que ao longe já se podia observar, perfilando-se no horizonte, a linha de cumes montanhosos cobertos de neve.

As horas iam passando e os vales sucediam-se uns a seguir aos outros numa interminável serie. Já para o fim da tarde, com vários quilómetros já realizados sobre as botas, o cansaço já começava a apoderar-se de alguns elementos do grupo. 

Como a hora também já ia adiantada começamos então à procura de um local para montar de novo o acampamento. Fomos encontrá-lo no vale do corgo de Lamalonga, já perto das minas do carris, num pequeno curral desocupado, com o chão atapetado de boa e macia erva, o que nos pareceu ideal para montar as tendas.

Caminhada no Gerês

Após a instalação do acampamento resolvemos então fazer uma fogueira para assar uns chouriços que tínhamos trazido connosco, o que era um óptimo complemento á comida liofilizada que normalmente se transporta para este tipo de eventos. E para acompanhar aquele manjar, quase por magia apareceu um “tónicozinho fortificante”, daqueles de 18 anos e de malte! 
O ambiente estava assim montado para uma boa conversa á volta da fogueira e foi deste modo que durante algumas horas nos deliciamos a ouvir o nosso amigo Barros a contar as suas aventuras recentes por terras de África.


2ª feira, 7 de Março 2011:

O dia seguinte trouxe infelizmente algumas desistências no seio do nosso grupo.

O Fernando Gonçalves, a Vanda e o filho, o Tiago, resolveram não continuar por não estarem preparados para um cenário em que previsivelmente seria necessário mais um ou dois dias de caminhada para se poder atingir o objectivo proposto.
De facto após contabilizado um dia e meio em deslocação, a distancia percorrida tinha sido decepcionante; não mais do que 16 km desde a saída de Pitões das Júnias! 
Excesso de peso nas mochilas, algum planeamento deficiente e falta de preparação física de alguns dos elementos participantes (inclusive aqui do autor destas linhas…) eram alguns dos motivos que explicavam o pouco progresso realizado.

Infelizmente as desistências não ficaram por aqui! O amigo Barros também não quis continuar por achar que o seu ritmo de caminhada, um pouco mais lento, iria prejudicar a restante equipa. Apesar de pessoalmente não achar que tivesse razão, foi de facto uma decisão que mereceu todo o nosso respeito por colocar o bem comum acima das opções individuais.

Como o local onde tínhamos acampado não distava muito de um estradão que conduzia a Paradela, estes nossos amigos tomaram esse caminho enquanto a restante equipa, agora reduzida a 6 pessoas, retomava o itinerário previsto.

Caminhada no Gerês

O percurso iria conduzir-nos para perto do pico do Borrageiro, local onde se situam as minas com o mesmo nome e onde, durante a II guerra mundial, se extraiu Volfrâmio e outros matérias que depois eram utilizados na produção de explosivos.  Hoje em dia este local pouco mais é do que um monte de ruínas, vendo-se algumas estruturas que correspondiam a casas feitas em blocos de granito onde os responsáveis da mina e os trabalhadores estariam alojados. Por trás e dominando a paisagem o pico dominador do Borrageiro recortava-se contra o azul do céu.

Após uma pequena pausa para descansar e apreciar a paisagem continuamos então a nossa caminhada. O trilho acompanhava agora uma zona de vales profundamente escavados, onde as paisagens magníficas e grandiosas se sucediam continuamente. Infelizmente nem sempre lhe podíamos dar o devido valor já que a progressão exigia todo o nosso cuidado face à inclinação perigosa do terreno e à estreiteza que o trilho apresentava em alguns locais. 

Caminhada no Gerês

O que nos permitia avançar com confiança era o facto de na nossa equipa ir um guia muito experimentado nestas andanças, o Miguel Paiva, um grande montanheiro e profundo conhecedor do Gerês, que conseguia sempre descobrir os melhores trilhos e os locais mais espectaculares para passar.

Para o fim da tarde e já com muitas horas de caminhada em cima, atingimos finalmente a zona dos prados da Messe, mais especificamente o curral da pedra, um local de pastoreio, isolado, de grande beleza e relativamente plano, circundado quase a toda à volta por diversos montes. 
Apesar de ser um bom sitio para se montar o acampamento preferimos continuar para a frente para fazer mais alguns quilómetros aproveitando o máximo possível a luz proporcionada pelo bom sol do fim da tarde. 
Seguindo as indicações do Miguel continuamos então a marcha na direcção do Conho, local que fica aproximadamente a 1,5 quilómetro do prados da messe. E foi aqui, nesta zona onde existe um curral com uma cabana rústica de pedra, a qual dá apoio à actividade dos pastores, que resolvemos passar mais uma noite. Alguns ainda montaram as tendas mas outros preferiram mesmo dormir dentro da cabana.

Para o jantar resolvemos partilhar entre todos a comida, já que os mantimentos começavam a escassear. Felizmente que o dia seguinte seria previsivelmente o dia em que atingiríamos o nosso objectivo. Quanto ao jantar, o mesmo foi preparado e consumido por todos na cabana, já que esta proporcionava um ambiente mais acolhedor, para o qual muito contribuía aliás uma pequena fogueira que resolvemos fazer junto a um dos recantos. 

A noite estava óptima e o céu limpo de nuvens, permitia observar a via láctea em toda a sua magnificência. Aliás, o bom tempo foi sempre uma constante durante todo este passeio!

Após o jantar, o pessoal resolveu recolheu às tendas (aqueles que as tinham montado) a fim de aproveitar bem uma noite de sono. É que no dia seguinte planeávamos levantarmo-nos com os primeiros alvores da madrugada para aproveitar bem o dia.  Tínhamos ainda muitos quilómetros para fazer e  não podíamos correr o risco de não conseguir terminar o nosso périplo na Terça-feira gorda do Carnaval!

3ª feira, 8 de Março 2011:

Caminhada no Gerês

Tal como previsto levantamo-nos bastante cedo. Aqueles que tinham as tendas viradas para leste, como o autor destas linhas, foram os primeiros a saudar o nascimento do glorioso astro-rei, que despontava por trás da montanha!

Após a realização dos habituais preparos ainda tivemos tempo para tomar um pequeno-almoço reforçado - que incluiu cafezinho quente solúvel – antes de nos fazermos de novo ao caminho.

Começamos por fazer o trilho conhecido por Lomba do Pau, o qual nos levou até ao alto da serra, a zona das chãs (Chã da fonte, Chã da presa). Daí acompanhamos o curso do rio do Camalhão, passando no curral com o mesmo nome, até atingir o bonito vale do rio Teixeira. 

Ainda foram algumas horas a caminhar mas a partir deste ponto foi fácil encontrar um trilho florestal que, encosta abaixo, nos levou então ao nosso objectivo final; a vila do Gerês! 

Caminhada no Gerês

Cruzamos a placa toponímica da mesma por volta das 16.00 h e obviamente a ocasião exigiu uma fotografia de grupo, não só para celebrar o feito, mas também parta comprovar perante terceiros que tínhamos alcançado aquilo que nos tínhamos proposto fazer inicialmente.

A caminhada pela serra, ligando Pitões das Júnias à vila do Gerês tinha finalmente chegado ao fim, no 4º dia de expedição!

Não se pode dizer que tenha sido um passeio fácil ou ao alcance de qualquer um. Estaríamos a mentir se afirmássemos isso! De facto revelou-se uma caminhada bem dura, fazendo jus ao seu epíteto! Obviamente que o grau de dificuldade experienciado variou entre os participantes, consoante a experiência, motivação e forma física de cada um!
Mas no final o saldo revelou-se bem positivo já que foi uma oportunidade de ficar a conhecer zonas selvagens e isoladas da serra do Gerês e poder apreciar paisagens de grande beleza esculpidas a uma escala pouco habitual. 

Para comemorar a conclusão deste feito o pessoal ainda se sentou a uma mesa de restaurante na vila do Gerês, para comer uns bons petiscos e beber um copito, recuperando assim as energias perdidas. 

E deste modo se fechou com chave de ouro mais um grande evento da Obeta!

 

Saudações radicais

         Paulo Mazzetti