Trilhando velhos caminhos de ferro (Alentejo 1)

Relatório de Actividades:

Os campos alentejanos receberam, uma vez mais, os visitantes obetas com a amabilidade, simpatia e brejeirice que é seu apanágio: afectuosos abraços, sorrisos largos, beijocas quentes e borrifos refrescantes...


1º dia (Sábado, 9 de Março de 2013)

Um pequeno grupo de audazes (a TêTê, a TêJê, a JotaJota, o FC, o MD e este vosso escriba de serviço, que o malandro do organizador pirou e vogava por outras paragens...), sem temor das fortes tempestades que os vários "mentirológicos" anunciavam para sábado, confiando mais nos respectivos narizes e na sua vasta experiência de olhar os céus e as nuvens que na informação dos sites ditos especializados, apresentou-se para, de peito feito, enfrentar o que viesse. E em boa hora o fizeram, pois, como se sabe, "audaces fortuna iuvat" (1).

Abrigo

E a sorte surgiu quando, na Achada, não se viu nenhum gamo, mas sim bons tectos para se protegerem da alvercada que nesse momento caiu; e o mesmo aconteceu mais tarde, quando Santa Ana os abrigou de uma segunda.
De resto, um jogo brincalhão de sol e nuvens.
Mas deixemos o exórdio e passemos ao que interessa.

Iniciado o percurso na arborizada zona habitacional nobre, aquela que os «senhores» da Mina para e a seu belo prazer construíram e habitaram, de imediato descortinámos o palácio de James Mason, hoje hotel, a um dos lados do jardim dos ingleses, que cruzávamos.
Aqui, entrevi algumas diáfanas ladies de longos e folhosos vestidos arrastando o chão, sombrinha aberta para manterem a pele alva, e melhor esconderem a cara e abafarem as palavras pronunciadas, flartando com cavalheiros de fraque, chapéu alto e bigode retorcido, enquanto, no coreto, um quarteto de cordas tocava Mozart, e no court de ténis dois casais em ceroulas batiam umas bolas.
De repente, matutava eu se a visão fora sonho ou realidade, desembocámos no complexo mineiro.

O contraste foi esmagador!
Mina Imaginámos o monte (serra de S. Domingos), que desapareceu e deu lugar a um enorme buraco (a Corta), agora enorme piscina de águas ácidas; vimos edifícios semi ou totalmente destruídos, estruturas tipo torre, pontes em péssimo estado; pisámos toneladas e toneladas de escória; bordejámos pequenas valas transformadas em ribeiros de água aparentemente cristalina e estancos de águas contaminadas; deparámo-nos com terras de cores as mais diversas, e águas de colorações as mais inusitadas.
Sempre caminhando ao longo daquilo que foi, há mais de 150 anos, a linha de transporte do minério para o Pomarão, embarcadouro para Inglaterra, saíamos aqui ou ali para melhor ver pormenores ou, subindo «ao alto rochedo», melhor ver as redondezas. E voltámos a ver fábricas derruídas, terras contaminadas, lamas envenenadas...

Passado que foi o belo horrível do complexo mineiro, entrámos num segundo tipo de envolvente, mais amena para os olhos e mais radical para o avanço, pois a grande quantidade de água chovida nos últimos tempos (e na véspera parecia "cães e gatos" de encontro ao meu "burro") encharcou os campos, "ribeirou" inúmeras linhas de água, transformou em quase rios pequenos barrancos secos na maior parte do ano.
Resultado: descobrir, por inexistência de pontes, pontos de atravessamento, uma invariável; saltar de pedra em pedra, quando as havia, um método; provar a estanquidade das botas, uma constante!

Mina

Depois, bom, depois foi o bom e o bonito. Mas somente para quem não tiver medo do escuro, dos bichos do escuro, dos fantasmas do escuro, dos mitos do escuro, de vampiros, de ratos cegos, de orelhudos, de alimárias e demais avantesmas...

Chegámos, por fim, ao grande rio do sul, neste ponto ainda totalmente português, onde as nossas montadas nos aguardavam.

Finalmente descansados, duchados, refrescados, limpos e jantados, rumámos à noite...


2º dia (Domingo, 10 de Março de 2013)

Mina

Com o sacrifício que as poucas horas de sono sempre acarretam, arrastando cada qual seus pés, dirigimo-nos para a segunda volta.
E porque o Guadiana estava demasiado cheio e por certo cobriria partes do trilho previsto, achou-se por bem alterar a rota e, em vez de Mértola, fomos rodar pelos velhos carris do há muito desactivado ramal de Moura.

Bufo Real

Durante o percurso, para além de termos observado vacas, vaquinhas, vitelos, bezerros (cadê os bois?); carneiros, ovelhas, borregos, e borreguinhos; lebres e coelhos aos pinotes; perdizes a tiro de pedra; aves rapinas, garças e as inefáveis cegonhas, ora em ninhos, ora pairando, ora alimentando filhotes, tivemos igualmente o inolvidável prazer (pela beleza e raridade) de ter um encontro com uma família de bufos reais que, à vez, levantaram voo a poucos metros dos surpreendidos caminhantes.

Finalmente, cansados (mas não muito), fomos então tratar de umas letrinhas e, depois... Ala que amanhã é dia de trabalho!

 

E.deS.    (com pequenas adaptações do texto por P.M.)

 

(1) Jogo: se não sabem o que isto significa, sigam as pisadas itálicas nas proximidades...